sábado, 18 de abril de 2009

Capitulo 4 - Uma mensagem incompleta - Parte 2

11h37 do dia seguinte, ao acordar, senti-me como se alguem tivesse metido peso dentro da minha cabeça, não necessariamente algo, apenas peso. Doía-me a cabeça e sentia um grande peso.
Depois dos segundos iniciais a perceber quem era e a situar-me no tempo e espaço, para não variar, percebi que era terça-feira e que tinha de ir até ao jornal organizar as fotos para a entrevista especial da semana(sobre os melhoramentos do concelho desde que a nova presidente da câmara municipal tinha tomado posse) com um colega, o Fred, que entrevistou a nova presidente.

Depois de lavado e vestido, como mandam as regras da higiene pessoal, aproximei-me da janela da sala para ver como estava o clima lá fora. Só para não ter de passar frio novamente, armado em valente, de t-shirt vestida. Estava sol mas de qualquer maneira decidi levar um casaco comigo, não fossem os chefes lá de cima mudarem de opinião e mandar uns ventos frescos para o povo cá de baixo.

A caminho da redacção passei pelo quiosque do costume com a banca dos jornais diários, os quais me deixaram extremamente intrigado. Todos mostravam uma fotografia de um assalto a uma casa, onde houve também um tiroteio e um taxista tinha sido morto. O que me chamou mais a atenção é que se tinha passado no inicio da tarde anterior, na rua Dr. Jahsint Phonsiek. Esta foi a parte em que o meu cerebro quase fez tilt pois as duvidas surgiram novamente aos milhares. Lembrava-me bem que a rua Dr. Jahsint Phonsiek era aquela pela qual eu não tinha ido na noite passada.
Decidi comprar um jornal, mesmo sabendo que provavelmente 50% das informações sobre o assanto e tiroteio teriam sido ligeiramente alteradas pois existem sempre varias versões de todas as historias, dependendo do numero de pessoas que a presenciaram. Folheando o jornal, cheguei ás páginas que relatavam o evento detalhadamente, as quais continham tambem algumas fotos. Uma delas da rua e uma outra foto do taxista que morreu. Não podia acreditar no que estava a ver, era o taxista que me tinha levado a casa, lembrava-me perfeitamente. De repente, fez-se novamente luz na minha cabeça quando identifiquei que a cara do taxista era a mesma do homem que me tinha servido ao bebida no café onde o pessoal da universidade tinha passado a tarde da véspera. Na noite anterior não associei a cara do taxista à cara do homem do café pois eu estava cansado mas agora tudo era claro, era ele. O que mais me incomodava era o facto de eu ter sido levado a casa pelo taxista e no jornal estar escrito que o tiroteio foi ao inicio da tarde. Bem, no entanto eu também tinha certeza que o homem do café me tinha servido uma garrafa de água e tinha desaparecido dentro do que depois me foi mostrado como sendo uma despensa, sem saida. Que situação tão estranha, como era possivel? Será que era de mim? Andaria a ter alucinações?

Voltei cuidadosamente a olhar para a foto da capa onde estava também um taxi e alguns carros da policia. Foi então que reparei em algo estranho. A porta! A porta do lado direito do carro tinha 2 buracos do tamanho de 2 balas. Fazia sentido haver buracos de balas, o que não fazia sentido era o taxista que teria supostamente morrido ao inicio da tarde, levar-me a casa à noite. Será que estava apenas perante um taxista brigão, armado em mau, que gostava de brincar aos tiroteios e aquelas marcas já vinham de outros incidentes do passado? Sinceramente não me parece. Acho que nenhum taxista deixaria rasto de um tirotei no seu carro por muito tempo, não é algo que atraia clientes!

Segui caminho sempre a pensar que estava tudo muito estranho. A minha mente era uma duvida só, estava muito confuso sobre tudo. A Vanessa e o seus desaparecimentos misteriosos, o empregado do café ou taxista que teria morrido antes de fazer o seu ultimo serviço.
Confuso, era pouco para descrever o meu estado actual.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Capitulo 4 - Uma mensagem incompleta - Parte 1

Entretanto, como se não bastasse ter feito aquela figura de alucinado, aparentemente imaginando pessoas, sítios e até objectos, comecei a sentir um calor estranho, uma pressão na cabeça. Subitamente comecei a perder o equilíbrio, a ver as coisas a rodarem à minha volta e mesmo tentando falar, só saíam palavras enroladas e imperceptiveis.
Perdi o controlo do meu corpo e acabei por cair em cima do balcão, inconsciente.

Quando voltei a acordar, parecia que tinham passado imensas horas mas tinha a perfeita consciência de tudo que tinha acabado de acontecer.
Abrindo os olhos, deparei-me com uma mesa rodeada de pessoas a jogarem ás cartas numa grande algazarra. Lentamente comecei a identificar as silhuetas ate finalmente conseguir manter os olhos abertos e através do que via, identificar os meus colegas.

O Zeca aproximou-se:
“ Então Seth, essa soneca? És sempre o mesmo! Não podes ficar mais de meia hora parado sem pelo menos pensar em dormir, assim não aproveitas os teus dias!”
“ O que aconteceu? Como é que eu vim parar aqui?” – Perguntei eu espantado pois lembro-me bem de ter perdido os sentidos perto do balcão e de momento estava refastelado num ‘puf’ do outro lado da sala.
“ Bem, a vontade de dormir era tanta que nem te lembras como foste aí parar?” Perguntou o Zeca um pouco mais espantado que o normal. “ Nunca te tinha visto assim, ‘tás bem?”
Quis responder lhe que sim mas não conseguia articular as palavras bem. Esfreguei os olhos e questionei-o novamente:
“ Quem é que me trouxe para aqui?” – Vi na expressão dele que de repente ficou um pouco mais preocupado.
“ Não te lembras mesmo, Seth?
“ Não…”
“ Bem, desde que chegámos que te sentaste aí e nem quiseste vir jogar uma cartada com o pessoal, achei estranho mas disseste que estavas só um pouco cansado.”
“ Desde que chegámos? ” – Havia qualquer coisa que me estava a escapar ou então era o Zeca que estava a fazer pouco de mim visto eu ainda estar com sono.
“ Sim, porquê?”
“ Então mas quando chegámos tu não vieste jogar ás cartas, Zeca. Ficaste no balcão a falar com uma loira e quando eu fui pedir uma bebida, senti-me mal e devo ter desmaiado, lembras-te certo?”
“ Loira? Qual loira? Estás a fazer confusão de certeza, quando chegámos eu vim sentar-me aqui com o pessoal e tu encostaste-te logo aí, dizendo que tinhas mesmo de descansar um pouco.”
“ Eu? Tens a certeza?” – Aquela historia que o Zeca me estava a contar não tinha nada a ver com o que eu me lembrava mas decidi não fazer mais perguntas pois estava a deixa-lo assustado e a baralhar-me mais ainda. - "Ok, esquece isso, devo estar a confundir algum sonho com a realidade."
Ao levantar-me reparei que o fim da tarde tinha chegado e começava a anoitecer.
Despedi-me de todos e fui para casa.

Nem 10 minutos tinham passado e comecei a reparar que me tinha perdido. Já estava escuro e não consegui reconhecer a rua onde estava.
Ao fundo vi uma bifurcação. Continuei a caminhar em direcção a ela e quando lá cheguei decidi parar e olhar para cada uma das hipóteses.
Esquerda ou direita, ambas exactamente simétricas. A da direita era a rua Dr. Jahsint Phonsiek, já a da Esquerda era a rua Dra. Firgulynia Barbuzi.
O campo de visão era reduzido, cerca de 25 metros e depois havia uma esquina.
As ruas estavam desertas, nem um único carro passava. As duas ruas eram compostas por uma estrada estreita, de sentido único, com prédios de 3 andares e um pequeno passeio feito de pedra da calçada já muito antiga. Mais parecia um cenário de um filme do que propriamente da cidade onde eu vivia pois era quase impossivel encontrar-se duas ruas iguais.

De repente os postes de iluminação da rua que estava à minha direita apagaram-se todos e a rua parecia que tinha deixado de existir. Só se via uma película de escuridão quando se olhava para o lado direito.
Não hesitei e aproveitei que a decisão ficou facilitada para começar a andar pela rua da esquerda.
Ao virar esquina deparei-me com uma praça de Táxis. Estava safo, pensei.
Dirigi-me para o unico carro que lá estava e antes de entrar reparei que a porta do lado direito tinha dois buracos pequenos muito semelhantes a buracos de duas balas.
Entrei no táxi e indiquei ao condutor o nome da minha rua para que ele me levasse lá.
A sua cara não me era estranha mas no entanto não estava em condições de pensar de onde o conhecia ou com quem era parecido.
O condutor por sua vez, não me deu confiança e seguia a viagem calado com a sua cara séria e muito carrancuda.
Chegando à minha rua, e ao fim de quase 2 minutos à procura de dinheiro nos bolsos, paguei com a última nota que tinha e fui para casa o mais rápido que consegui. Tinham sido muitas aventuras nas últimas horas e estava muito cansado, só queria dormir. A minha cabeça estava zonza de tanto pensar nas mais estranhas situações pelas quais tinha passado.
Lá por casa não havia sinais de vida. Os Gatos dormiam, a Mari não estava e eu preparava-me para ir directamente para a cama quando ao tirar o telemóvel do bolso, agarrada, vinha uma nota. Era impossível, eu tinha tirado tudo dos bolsos no táxi e não me lembrava de me ter sobrado nenhuma nota, no entanto estava demasiado cansado para pensar. Poisei o telemóvel e a nota na secretária e deitei-me sem me preocupar com rigorosamente mais nada.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Capitulo 3 - De volta - Parte 5

Nem 30 segundos depois e ainda a caminho até à porta da universidade, ouvi alguém chamar o meu nome. Era o Zeca (diminutivo de José Carlos), meu colega de turma.

Vi-o a andar na minha direcção com aquele ar relaxado dele, baloiçando-se para os lados um pouco mais que o normal, os pés a apontarem ligeiramente para fora ao andar e sempre com as costas direitas. O Zeca era aquele tipo de pessoa muito invulgar. Ele tratava toda a gente na 2ª pessoa do singular sendo um colega de turma, sendo um engenheiro ou apenas o porteiro do prédio dele. No entanto apesar de alguma falta de formalidade, era extremamente educado e não faltava ao respeito a ninguém. Quando alguém não partilhava da mesma opinião, ele arranjava sempre forma de não entrar em atrito e resolver as coisas na base da conversa.
Uma pessoa extremamente inteligente e perspicaz. Com 22 anos ele estava no último ano do curso de fotografia e a sua genialidade estendia-se a outros campos como a escrita, o teatro e até a pintura. Eu considerava-o um artista no verdadeiro sentido da palavra. Um diamante bruto à espera de ser descoberto.
O Zeca de tanto querer ser ‘Normal’, era um tanto ou quanto ‘Anormal’.

Breve descrição do Zeca:

Nome: Zeca
Idade: 22
Aspecto: Magro, estatura normal, habitualmente bem apresentável
Estilo de musica preferida: Não tem
Cidade natal: Prefere não revelar
Coisa que não suporta: Dores causadas pelos dentes
Profissão: Fotografo/ajudante no talho do pai aos sábados
Pior defeito: Relaxado demais
Maior vicio: Tratar a toda a gente por tu
Passatempo preferido: Fumar umas coisas que não devia
Melhor virtude: Educação
Coisa mais louca que fez até hoje: Trancou a universidade com correntes e cadeados bloqueando a entrada por algumas horas
Outra info útil: Filho de pais ricos que não lhe dão muita atenção

“Então Seth, como tens passado?” – Perguntou ele com a boa disposição que era habitual.
“Bem… O que se passa?” – Respondi-lhe eu com outra pergunta.
“Epá, houve alguém que trancou as entradas da universidade e mandou as chaves fora, mas eu não faço ideia quem foi!” – No momento que ele disse aquilo eu percebi que ele sabia pois estava a dar informação a mais. Como saberia ele que a pessoa tinha mesmo mandado as chaves fora?
“Olha Zeca, por mim não há problema nenhum com isso mas se mais alguém te perguntar, eu se fosse a ti dizia só que não sabia de nada!” – Avisei-o eu na esperança de ele perceber que tinha falado demais.
“Pois é isso, eu não sei de nada. Não digas a ninguém, por favor.” – Pediu-me ele já um pouco nervoso – “Mas olha, o pessoal está a pensar ir até ali a um café novo que abriu aqui na zona, parece que tem bom ambiente apesar do nome ser ‘Orgasmic’, porque não vens connosco?”
“Ahahah! Sim, parece-me um bom plano!” – Respondi-lhe, ainda rindo, pois um nome daqueles era algo que chocaria os mais velhos se soubessem a tradução.

O tal café não era muito longe da universidade, 5 minutos a andar. Entretanto já me tinha perdido pois estava com um grupo de 9 e com toda a conversa, não prestei atenção ao caminho.



Chegando ao ‘Orgasmic’, deparámo-nos com um cenário muito agradável. Um sitio amplo decorado com cores, onde tinha o espaço do café em si, com algumas mesas e cadeiras, e uma sala um pouco maior ao lado separada por uma cortina onde se poderia ir à Internet, ver TV e ouvir musica, descontrair um pouco nuns sofás, ou até, jogar snooker. Um sítio porreiro para passarmos as tardes que não tivéssemos aulas, pensei.
Quando entrámos, o pessoal dividiu-se maioritariamente pela parte dos sofás ficando só o Zeca a conversar com uma miúda loira muito gira que estava no balcão. Normalmente ele dava conversa a todas mas raramente conseguia obter alguma coisa delas.
A certa altura, passados talvez uns 20 minutos de lá estarmos dentro, fui até ao balcão para pedir algo para beber e também para tentar ouvir em que ponto estava a conversa do Zeca com a loira.

“Boa tarde, queria uma garrafa de água por favor.” – Pedi eu ao homem com cara séria que apareceu de repente a trás do balcão, vindo da porta que dava acesso a um sítio que só os funcionários tinham acesso.
“Aqui tens a água, Seth!” – Respondeu ele.
“Obriga…” – Não cheguei a terminar a palavra pois fiquei surpreso por ele saber o meu nome e ele virando costas voltou a desaparecer pela mesma porta que tinha aparecido. – “Olhe, desculpe, mas como sabe o meu nome?” – Ele tinha-me simplesmente ignorado e ido embora. Olhei para o lado e perguntei ao Zeca e à miúda loira se tinham visto o desprezo com que aquele funcionário me tinha tratado e ambos ficaram a olhar para mim muito surpreendidos.
“O que foi? Acham que não tenho razão? O homem disse o meu nome!” – Disse eu tentando que eles dissessem algo em vez de olharem para mim com aquelas caras.
“Seth, tu estás bem?” – Perguntou-me o Zeca
“Sim mas porque dizes isso?” – Perguntei-lhe de imediato.
“Porque estás a dizer coisas sem sentido. Estás a falar de quem? – Questionou-me o Zeca com expressão de preocupação – “Ninguém disse o teu nome.”
“Como não? Vocês não viram aquele homem que acabou de ir embora por aquela porta? – Respondi-lhe eu já confuso.
“Aquela porta dá acesso à despensa onde guardamos a maioria das bebidas.” – Respondeu a miúda loira aproximando-se da porta e abrindo-a.

Era verdade, a porta dava acesso a uma pequena despensa onde se encontravam as bebidas.
De repente olhei para cima do balcão e a garrafa de água tinha desaparecido também.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Capitulo 3 - De volta - Parte 4

Ao fim de 10 minutos já estava aborrecido por estar à espera e decidi enviar uma mensagem escrita à minha prima, para saber se não era possível ela chegar um pouco mais cedo, pois se bem a conhecia, ela de certeza que chegaria mais tarde, era típico das pessoas daquele país chegar sempre um pouco atrasadas!
‘Olá! Por acaso não podes vir mais cedo? Já estou no restaurante. bjs, Seth.’ – Enviei a mensagem.
Não demorou 2 minutos e ela respondeu – ‘Já estou a caminho! Até já’ – Ena, parecia realmente um milagre, a minha prima a chegar antes da hora.
Num piscar de olhos ela chegou e logo começámos a conversar desenfreadamente, contando as novidades dos últimos dias um ao outro. Entretanto o meu telefone tocou.
“Tô!?” – Atendi descontraidamente – “Vanessa? Então, está tudo bem? O que te aconteceu?” – Por incrível que pareça, era a Vanessa e rapidamente o meu pensamento desviou-se do restaurante e da conversa da minha prima.
“Quando? Por mim, pode ser quando quiseres! Que tal amanhã ao almoço?” – Perguntei eu na esperança de não ter a mesma sorte que tinha tido da última vez que tinha marcado um encontro com ela. Desta vez ela não só pediu desculpa por não ter aparecido, como também me disse que iria mesmo aparecer pois tinha uma coisa importantíssima para me contar. Fiquei logo muito curioso.
Combinámos almoçar no restaurante do Zé no dia seguinte, com sorte conseguia um desconto!

Desligando a chamada, a conversa com a minha prima continuou. Ela fez logo imensas perguntas sobre a Vanessa e tive que contar a historia toda desde o início. Mais uma vez, tal como a Mari, ela também me chamou de louco! Porque será que ninguém acreditava em mim?
De seguida falou-me um pouco dos últimos dias dela e disse-me que tinha uma amiga que era modelo, a Dora, que precisava de uma sessão fotográfica e que lhe tinha dado o meu número de telemóvel para combinarmos um sítio e uma hora.
Achei estranho a minha prima ter dado o meu contacto mas ela em sua defesa disse que a amiga era mesmo muito gira e precisava mesmo de alguém para fazer umas boas fotos. Duas desculpas bastantes razoáveis na minha opinião!
Mais um trabalho pontual que eu não poderia recusar.
O almoço foi agradável.

Breve descrição da minha prima Bia:

Nome: Bia
Idade: 21 anos
Aspecto: Humano
Estilo de musica preferido: Aquele estilo que se adequa ao momento e ao estado de espírito
Cidade natal: Lisboniardz
Coisa que não suporta: Sonhar e bater com a cabeça; esperar sem alcançar e lulas com arroz
Profissão: Estudante de Psicologia
Pior defeito: Teimosa
Maior vicio: Comer aquelas gomas "fofinhas", como ela própria dizia
Passatempo preferido: Ver filmes
Melhor virtude: Ser ela mesma… sem medo
Coisa mais louca que fez ate hoje: teve um caso com o namorado da melhor amiga
Outra info util: informação demasiado má para ser escrita aqui

Depois do almoço, apanhei o autocarro para a universidade e durante a viagem lá deixei a minha mente divagar novamente sobre o assunto que me assombrara nos ultimos dias. Será que a Vanessa apareceria mesmo? E que assunto tão importante seria esse? Mal nos conhecia-mos!

Chegando à universidade, qual o meu espanto quando vejo as portas fechadas e uma multidão de estudantes do lado de fora. A primeira coisa que me passou pela cabeça foi a lembrança do aparato que tinha acontecido na estação de comboios no sábado.
Olhei à volta mas não vi ninguém da polícia nem vi ninguém com aparência ou traje fora do normal.
Decidi ir até à porta ver se apurava o que se estava a passar afinal e tentar encontrar alguém conhecido.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Capitulo 3 - De volta - Parte 3

Olhei novamente pela janela e decidi naquele preciso momento, que não iria mais fazer aquele tipo de cenas para conseguir falar com a Vanessa, nem sequer lhe ia tentar telefonar novamente.
Quando me virei para trás, parte dos funcionários da redacção estavam de pé a olhar para mim com uma cara de admiração. Sorri, cocei a cabeça com um ar de quem se estava a sentir mal por estarem todos a olhar, ajeitei os óculos e dirigi-me até à mesa da assistente do Eduardo, a Vera.

“Olá, bom dia Vera! Queria falar com o Eduardo, ele está?” – Perguntei eu quase a adivinhar a resposta. Claro que estava, ele nunca se atrasava, todos os dias lá estava às 8 horas.
“Não. Ele ligou há meia hora a informar que ia chegar um pouco atrasado porque teve uns problemas com o carro!” – Respondeu ela contrariando as minhas previsões.
“Ok, então eu espero.” – Disse-lhe eu conformando-me e caminhando até uma das cadeiras que ali estavam por perto.

Entretanto o meu telemóvel tocou, tinha recebido uma mensagem escrita.
Era mensagem da minha prima a dizer que ia ter comigo ao restaurante do Zé por volta das 13h.

Passados mais 25 minutos lá chegou o Eduardo e parecia vir mal-humorado. Foi então que reconsiderei o motivo da minha ida à redacção e decidi não apresentar nenhuma foto sobre a entrevista especial não fosse ele subvaloriza-la mais ainda do que já costumava fazer, mas desta vez por causa do mau-humor. Eu iria apenas informa-lo do que eu já tinha feito, do que me faltava fazer e perguntar se ele tinha algum trabalho ou objectivo para eu cumprir nessa semana.
Ele pouco falou, não me deu trabalho nenhum e ainda me despachou, não mostrado interesse no que quer que fosse.
Fiquei um pouco chateado, ter ficado ali à espera dele e depois ele ter uma atitude daquelas mas ele era o homem que tinha o dinheiro e que mandava ali, tive de me conformar.

Saindo do edifício da redacção e como ainda tinha tempo livre antes de ir ter com a minha prima, lembrei-me de ir até à loja da Mari, que não era muito longe dali, para ver como ela estava e tentar perceber o que se tinha passado na noite anterior.

Uns metros à frente voltei a passar pela banca de jornais e vi que a maioria (dos jornais) falavam sobre as ameaças de bomba de sábado. Repentinamente lembrei-me que eu tinha fotos melhores do que qualquer uma que se pudesse ver nas capas e poderia perfeitamente imprimir umas cópias das fotos e enviar para os jornais, quem sabe não conseguia uma posição freelancer em um jornal mais conceituado?

Fui então para casa, deixando o assunto da Mari para mais tarde.
Chegando a casa, não havia sinais da Mariana, pelos vistos tinha decidido ir à vida dela. Já o mesmo não se podia dizer do Pum e da Ganza que andavam a fazer rally pela casa, perseguindo-se um ao outro.

Rapidamente me sentei em frente ao computador, imprimi as cópias das fotos e redigi uma pequena e resumida folha de apresentação, pensei que era mais profissional se a fizesse. Imprimi também as moradas dos jornais para onde queria enviar as fotos e voltei novamente a sair de casa rumo à estação dos correios. Lá, comprei 4 envelopes e enviei as fotos. Era só esperar uma resposta em breve, pensei.
Fui então até à loja da Mari.

11h44m
A loja da Mari, de seu nome ‘Loja da Mari’ (que original!!!), tinha como alvo mulheres e comercializava produtos como: brincos, malas, carteiras, fios, anéis, óculos de sol e todos esses acessórios que fascinam a maioria das mulheres mas que no fundo não são mais que simples adereços. Para mim, era quase uma comparação entre um pinheiro ou uma árvore e os respectivos enfeites de natal. As mulheres bonitas, tais como as árvores bonitas, não precisam de acessórios para se destacarem.

A Mari já tinha a loja há 4 anos e parte dos produtos ela fazia-os em casa ou comprava a amigas que faziam em casa também, vendendo mais caro e dividindo o lucro. O negócio corria-lhe bem, talvez aquela cidade fosse uma cidade de mulheres feias!

Quando entrei na loja, encontrei lá a Mariana sozinha com a Mari. Estavam ambas a conversar sobre uns brincos novos quaisquer que a Mari tinha feito.
Rapidamente tive de inventar uma desculpa, pois não queria perguntar o que se passava com a Mariana presente. Confirmei só que estavam as duas bem e expliquei que ia ter com a minha prima e por acaso a loja ficava a caminho por isso tinha decidido passar lá para ver se estava tudo bem.

Segui então para o encontro com a minha prima, a manhã tinha passado num instante e mais uma vez, o nome da Vanessa corria na minha mente com um monte de dúvidas à volta.

12h03m
O Restaurante onde tinha combinado almoçar com a minha prima ficava perto da casa dela, numa zona mais rica da cidade, mas no entanto nem por isso o restaurante era muito chique. O dono era amigo de infância do meu tio e costumava fazer grandes descontos sempre que alguém da minha família lá ia.
Restava-me uma hora de espera por isso sentei-me virado para a televisão panorâmica do restaurante a ver aqueles programas de entretenimento matinais que são maioritariamente vistos por milhares de pessoas com idades superiores a 60 anos.

sábado, 10 de novembro de 2007

Capitulo 3 - De volta - Parte 2

7h34m.
Abri cautelosamente o olho esquerdo para ver as horas na esperança que ainda faltasse muito tempo até ao momento em que eu tinha de me levantar.
Ena que sorte, faltava 1 minuto!
Sentei-me na cama durante um instante após desligar o despertador, para me relembrar rapidamente de quem era, onde estava e o que tinha de fazer.
Lá estava eu novamente, pronto para me levantar e percorrer aquela distância do costume até à casa de banho. Estava de volta à rotina, pensava eu.

Quando regressava da casa de banho para o meu quarto por curiosidade olhei para a sala e vi a Ganza muito confortável em cima de um cobertor e o Pum em cima de uma almofada, ambos no sofá. Isto significava que alguém tinha dormido ali, decidi investigar. Não haviam quaisquer pistas.

Fui então preparar-me para ir até à redacção e para alem de levar a máquina fotográfica onde tinha ainda as fotos da ameaça de bomba de sábado, tinha que levar também umas fotos que tinha tirado durante a semana anterior para uma entrevista especial (sobre os melhoramentos do concelho desde que a nova presidente da câmara municipal tinha tomado posse) que iria ser lançada dali a uns dias pois tratando-se de um jornal local de pequena dimensão, só era lançada uma edição por semana, ás quartas-feiras.

Ainda antes de sair do prédio, lembrei-me que tinha deixado o relógio em casa e fazia-me falta ter o acessório no pulso, voltei a subir até ao 3º andar e quando abri a porta dei de caras com a Mariana que estava um pouco despenteada e com um aspecto de quem não tinha dormido muito bem, olheiras visíveis ao longe.
“Não está cá mais ninguém, deixaram-me sozinha?” – Perguntou ela assim que me viu.
“Bom dia! Sim, a malta trabalha, mas a Mari vem almoçar a casa se quiseres esperar por ela!” – Respondi-lhe eu com normalidade, tentando não mostrar que o facto de ela ter dormido lá em casa era uma coisa do outro mundo, o que até não era, eu apenas não estava habituado pois em 6 anos que ali estava nunca ninguém tinha dormido com a Mari, pelo menos que eu visse!
“Almoço? Mas que horas são?” – Voltou a perguntar ela sem ter dito novamente ‘Bom dia’, o que me fazia alguma confusão pois toda a vida fui educado para ter essa expressão na ponta da língua e dize-la antes de iniciar fosse que conversa fosse.
“Ainda é cedo, são 8h05. Se quiseres tens café e pão na cozinha, serve-te!" – Disse-lhe eu entrando no meu quarto, pegando no relógio e saindo. – “Adeus, um bom dia para ti!”
“Obrigada.” – Respondeu ela já com um tom de voz baixo, andando em direcção à máquina de café.

Segui então o meu caminho até à redacção, não ia lá todos os dias pois era um trabalho freelancer, apenas era pago pelas fotos que tirava e recompensado se cumprisse os prazos, o que em 2 anos tinha acontecido sempre, apesar da miséria do dinheiro que o Eduardo me oferecia pelas fotos.
A maioria do dinheiro que eu conseguia durante cada mês era a fotografar em casamentos, baptizados, festas de anos, ou qualquer outro tipo de eventos ali na zona e nos arredores. Isso sim, era dinheiro bom para mim, não aquela miséria que o jornal me pagava, mas eu tinha fé que um dia as coisas mudariam e arranjaria um trabalho a sério como fotografo num jornal a sério, como eu sonhava. Gostava de acreditar que era uma questão de paciência e trabalho árduo.

O caminho para a redacção não era longo, cerca de 15 minutos a pé. A certa altura, olhei para uma banca de jornais e reparei que a maioria das capas dos jornais voltava a dar destaque à série de ameaças de bomba que tinha havido no fim-de-semana anterior. Essa era talvez a coisa que eu menos gostava à cerca dos jornais. Os jornalistas parecia que esticavam as notícias como que estica um elástico, o mais possível até rebentar. Desta vez diziam que já haviam alguns suspeitos, o que muito provavelmente não passaria de boato mas os jornais tinham de vender e o povinho tinha de ler os boatos todos para poder especular segundo ‘fonte segura’. Leia-se nas entrelinhas que o povinho tinha de ser enganado, pois penso que qualquer pessoa que parasse para pensar chegaria a essa conclusão. Incrível, não!?

A poucos metros de entrar no edifício do jornal, olhei para um autocarro que estava parado à porta e para a enorme fila de pessoas que estava à espera de entrar. Não era nada normal, aquela paragem até era muito pouco concorrida.
Que estranho! Pensei eu.
De repente e de relance, pareceu-me ver a silhueta da Vanessa, mas como já me tinha enganado uma vez, decidi que desta vez não arriscaria a chamar o nome dela e muito menos a ir ter com ela e tocar-lhe no ombro para realmente confirmar se era ela ou não.
Lembrei-me que uma das janelas da redacção era mesmo de frente para a paragem de autocarros no 1º andar e que com um pouco de sorte talvez eu conseguisse vê-la de lá.
Apressei-me e entrei no edifício do jornal. Chamei o elevador mas no ecrã mostrou o algarismo 5. Não podia ficar à espera que o elevador descesse os 5 andares! As escadas! Corri para as escadas e subi até ao primeiro andar, as pessoas olhavam para mim como se eu fosse louco, não era normal eu entrar por ali a dentro a correr muito menos ás 8h20 da manhã.
As escadas iam dar a um sector não muito favorável, tive de correr à volta de alguns separadores de lugares até conseguir chegar à janela, mas consegui. Olhei pela janela mas a fila reduzia-se agora a duas pessoas que estavam prestes a entrar no autocarro. Percorri com os meus olhos todas as janelas do autocarro e encontrei-a! Era a Vanessa, na penúltima janela da parte de trás do autocarro. Mas dali de onde eu estava não tinha hipóteses de fazer sinais com as mãos nem chamar pelo nome dela. O Telemóvel! Peguei rapidamente no telemóvel e tentei ligar para ela, mas novamente em vão, a mesma mensagem de sempre, que o número não se encontrava disponível! Bolas!
Desisti!

domingo, 4 de novembro de 2007

Capitulo 3 - De volta - Parte 1

Chegando ao apartamento onde eu vivia, apercebi-me que a Maricruz (‘Mari’ para os amigos - leia-se “Méri”) não estava em casa e pousando a mochila à porta do meu quarto fui até à cozinha rapidamente para ir buscar uma lata de sumol, seguindo sem perder tempo para a sala deitando-me na cama de rede só por 5 minutos, pensava eu.

A casa onde eu vivia era da Mari, ela tinha-a ganho numa herança de um avô e como era grande demais para ela decidiu alugar-me um quarto.
Tínhamo-nos conhecido numa festa de anos de um amigo num bar, há cerca de 6 anos atrás, onde de imediato simpatizámos um com o outro e falámos durante horas. Nessa mesma noite, em conversa a Mari disse-me que tinha um quarto para alugar e eu achei que aquela era uma óptima oportunidade para me tornar independente saindo de casa dos meus pais e contrariando a mentalidade do povinho do país onde vivemos; a mentalidade que defende que os filhos podem e devem viver em casa dos pais até aos 30 anos ou mesmo aos 40 se ambas as partes concordarem.
Na mesma semana que conheci a Mari mudei-me lá para casa.
A casa tinha 3 quartos (o da Mari, um quarto onde ela tinha alguns trabalhos manuais que vendia na loja dela, e o quarto que ela me alugou) e uma sala grande com marquise, cozinha com outra marquise (onde era suposto dormirem o ‘Pum’ e a ‘Ganza’ – O casal de gatos da Mari), 2 casas de banho e um terraço muito agradável de se estar com uma vista bonita onde no verão fazíamos grandes almoços com os amigos.

Antes de mais, uma breve descrição da Mari:

Nome: Maricruz
Idade: 39
Aspecto: ridículo
Estilo de musica preferido: musica de rua
Cidade natal: Torata
Coisa que não suporta: A concorrência
Profissão: dona de uma loja de acessórios, "bugigangas" e afins
Pior defeito: é muito distraída
Maior vicio: a "bubida"
Passatempo preferido: ver novelas e programas televisivos que rocem o nível "muito mau"
Melhor virtude: tem uma visão muito positiva sobre a vida
Coisa mais louca que fez ate hoje: sair vestida de homem à rua, pensando que era Carnaval, quando ainda faltava 1 mês (distracção!?)
Outra info útil: é lésbica

“Já jantaste?” – Ouvia eu uma voz como se tivesse muito ao longe. De repente senti que algo me estava a tocar no ombro e decidi abrir metade do olho direito para espreitar. – “Sim, estou a falar contigo, preguiçoso!” – A Mari tinha chegado a casa.
“Depende do que for o jantar.” – Respondi eu com um pouco de receio dos cozinhados da Mari. Ela cozinhava muito bem, mas de vez em quando inventava umas comidas esquisitas. Da última vez que me lembrava, ela tinha feito uma salada oriental com arroz, onde o arroz estava frio e a salada quente. Que estranho que foi para mim.
“Estava a pensar encomendar umas pizas e convidar uns amigos para cá virem.” – Disse ela.
“Parece-me bastante bem! Estou cheio de fome e não como nada há horas!” – Fiquei convencido só por ouvir a palavra “Pizas”.

Entretanto enquanto esperávamos pelas pizas e pelos outros, contei à Mari a minha aventura da viagem a Sul. Ela riu-se à gargalhada e insistia que eu era louco e que andava a ver muitos filmes, tentando dar-me justificação para todos os episódios bizarros pelos quais eu tinha passado nas últimas 48horas.
Embora tenha tentado, não me convenceu. Eu continuava confuso com tudo o que se tinha passado.

O Jantar tinha corrido bem e as pizas estavam óptimas, como sempre.
Ainda acabámos por jogar ás cartas e beber uns copos de vinho a mais embora todos soubéssemos que no dia seguinte iria ser complicado ir trabalhar a horas decentes e que sempre que a Mari começava a beber era um desastre, embebedava-se muito facilmente.

Mais ao fim da noite, o Roberto e o Joaquim acabaram por se ir embora enquanto que a Marina ficou com a Mari a ajuda-la pois não havia uma única vez que a Mari se embebedasse e não vomitasse pouco tempo depois. Mesmo não sendo oficial, eu tinha um pressentimento que a Mari e a Marina namoravam, mas elas nunca assumiram. Estava muito cansado, despedi-me delas e fui para o meu quarto. Escusado será dizer que mal caí na cama adormeci.

sábado, 3 de novembro de 2007

Capitulo 2 - Desconfianças - Parte 5

O que poderia mais acontecer?

Pelas minhas contas, teria de andar mais 10/15min e estaria na estação de comboios. A boleia do Sr. Joaquim tinha sido pequena mas ajudou muito.
Para me manter ocupado enquanto percorria os últimos quilómetros da caminhada decidi ligar novamente para a Vanessa, ainda me estava a dever uma explicação sobre a seca que eu tinha apanhado na noite anterior por ela não ter aparecido. Mais uma vez e para não variar, respondeu do outro lado uma voz computorizada a informar que o número para o qual eu estava a ligar, não estava disponível.

Chegando à estação de comboios, preparava-me para procurar por outro autocarro para seguir viagem quando de repente me apercebi que a estação estava aberta. Aproximei-me para ver se já estava tudo a funcionar e realmente tudo estava ok. Óptimo!

Comprei então o meu bilhete e aguardei pelo comboio, tudo estava calmo.
Tudo estranhamente calmo.
Ainda enquanto esperava pelo comboio lembrei-me de ir à casa de banho, quando a meio do caminho avistei uma montra de uma papelaria com os jornais do dia e quase todos com a notícia das ameaças de bomba do dia anterior. Que coisa estranha, nunca tinha visto uma coisa tão organizada neste país. Estavam de parabéns as pessoas que tinham idealizado aquilo.

Assim que o comboio parou e eu entrei nele, fiz questão não só de contar que estavam 23 pessoas na carruagem como fiz também de não adormecer.
Decidi pegar na máquina fotográfica para rever as fotos que tinha tirado durante a viagem ao sul. Ás tantas, numa das primeiras fotos encontrei uma minha a dormir no comboio. Mais uma vez, lá veio a confusão ao de cima: a máquina fotográfica não tirava fotos sozinha; eu estava a dormir por isso também não tinha sido um ataque de sonambulismo; e a senhora idosa que se encontrava naquela carruagem, de certeza que não teria conhecimento para usar uma máquina fotográfica como a minha. Por todas estas razões estava convencido que a única pessoa que poderia ter tirado a foto seria a Vanessa!
O que significava que a senhora idosa me tinha enganado. Ou será que não estava lá nenhuma senhora e eu andava a delirar?

Às tantas o meu telemóvel tocou. Era a minha prima Bia a dizer que tinha saudades e andava a estudar muito por isso não me tinha dito nada nos últimos dias mas no entanto queria encontrar-se comigo no dia seguinte para almoçarmos juntos. Pareceu-me uma boa ideia.

De repente lembrei-me que tinha comprado um livro no dia anterior de manhã, que ainda não tinha tido muito tempo de o ler. Decidi retira-lo do fundo da mochila e dar uma vista de olhos.
Capa amarela, com o numero “2” em grande plano e em mais pequeno de um dos lados duas silhuetas de duas pessoas de mochila ás costas com o nome do livro por baixo: "Nem imaginas onde te foste meter!". Aquele título fazia-me rir de tão original.
Na minha opinião os escritores eram cada vez mais congratulados pela originalidade e pela adaptação da linguagem usada nos livros aos dias de hoje.

A meio da viagem o comboio voltou a parar por causa de uma pequena avaria mas 20 minutos depois lá voltou a andar com normalidade.
Finalmente o comboio parou na cidade onde eu morava e quase que sentia o cheiro a casa. Estava orgulhoso por não ter adormecido e quanto ao livro, não era grande de tamanho nem grande coisa em termos de qualidade. Era engraçado sem dúvida. Consegui ler um bom pedaço na viagem.




Ainda me faltava percorrer um troço até casa que preferia fazer de autocarro, como era digno de um grande preguiçoso como eu.

Chegando ao apartamento onde eu vivia, apercebi-me que a Maricruz (‘Mari’ para os amigos - leia-se “Méri”) não estava em casa e pousando a mochila à porta do meu quarto fui até à cozinha rapidamente, para ir buscar um sumo, seguindo sem perder tempo para a sala. Deitei-me na cama de rede só por 5 minutos, pensava eu.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Capitulo 2 - Desconfianças - Parte 4

Ali começou mais uma aventura tal como era fácil de prever, depois do que tinha acontecido no dia anterior.

Ao fim de 20 minutos de viagem, o autocarro abrandou até parar por completo. O motorista anunciou que estava com um problema no autocarro e ia tentar ver o que se passava em concreto, informando os passageiros para não saírem pois podia ser uma coisa rápida. 5 Minutos mais tarde lá voltou ele com cara de poucos amigos, dizendo que era um problema grave e teríamos de esperar pelo autocarro seguinte que passaria dali a 2 horas se não houvessem atrasos e provavelmente não haveria espaço para todos, por isso alguns teriam de ser pacientes e esperar 4 horas. Outra alternativa era caminhar até uma das estações de comboio mais próximas. A anterior ou a seguinte mas nenhuma delas ficava a menos de 45 minutos a pé.

O tempo estava ameno, talvez uns 21º. O sítio onde tínhamos parado era calmo e não haviam habitações nem qualquer tipo de comércio à distância de um olhar. De um dos lados da estrada via-se um grande descampado ate perder de vista e do outro árvores e mais árvores.

Dado a possibilidade de ter de esperar 4 horas não me agradar muito, não perdi tempo e comecei a andar até à estação seguinte, quem sabe não arranjava boleia, era muito preguiçoso para andar aquela distância mas por outro lado não queria de maneira nenhuma ficar ali parado.
Continuei o meu caminho olhando para trás de vez em quando e acenando com o dedo polegar, podia ser que pegasse. Não tinha de maneira nenhuma medo daquelas histórias que se ouvem contadas por um amigo de um amigo que recebeu um e-mail através de outro amigo a dizer que alguém que apanhou boleia e a dada altura foi drogado sem se aperceber e lhe roubaram os rins e o fígado e ele tinha acordado numa banheira com gelo e blá blá blá. Preferia acreditar que também existem pessoas boas no mundo e que não teria que andar tanto tempo a pé!

10 Minutos a pé e já estava farto. Subitamente vi uma carrinha de caixa aberta a parar à minha frente. Parece que o meu polegar era bonito, convenceu alguém a parar.
Aproximei-me e espreitei para dentro da carrinha para tentar perceber se me podia dar boleia ou se também tinha avariado. Olhando lá para dentro, vi um senhor com os seus 70 anos, cabelo branco, barba grande, barriga classificada com o mesmo adjectivo da barba, camisa de flanela ás riscas e um daqueles bonés à velho com quadrados cinzentos e brancos. Um aspecto campónio, definitivamente.

Após uma breve conversa dificultada pela falta de dentes, pela pronúncia e pelo mau português que o senhor falava lá descobri que o senhor ia até metade do caminho da próxima estação, que com sorte não estaria fechada. Entrei e segui viagem com ele.
Em conversa com o senhor Joaquim, questionei se ele tinha visto um autocarro, ao que ele muito espantado me respondeu que tinha vindo da mesma cidade onde a minha tia mora, feito a mesma estrada e não viu nenhum autocarro. Durante os primeiros segundos fiquei surpreso mas depois pensei que com aquela idade a memória de uma pessoa não é a mesma coisa que quando se tem 20 anos. Já a senhora com quem eu tinha falado no comboio também tinha afirmando que não tinha visto a Vanessa e no entanto ela esteve lá.
Após a minha questão, deixei o senhor Joaquim falar da vida dele tal como alguém daquela idade faz assim que encontra outra pessoa com dois ouvidos e que não é surda.
Mostrei-me relativamente interessado e fui respondendo visto ser a única coisa que lhe poderia oferecer em troca da boleia, a minha atenção.

Após ter sido deixado pelo senhor Joaquim numa bomba de gasolina, decidi comer as sandes que a tia me tinha obrigado a levar e lembrei-me de comprar um sumo na loja de conveniência.
Quando entrei na loja, vejo uma rapariga de costas para a porta, à procura de uma revista e dirigi-me a ela com toda a certeza que era a Vanessa.
“Então o que estás aqui a fazer?” – Perguntei eu aproximando-me e tocando-lhe no ombro.
“Desculpe?” – respondeu ela muito surpreendida virando-se.
“Ups, eu é que peço desculpa, pensei mesmo que fosse uma amiga minha!” – Disse eu muito envergonhado depois de reparar que não era a Vanessa mas sim alguém muito parecida de costas.
Ela sorriu dizendo que não havia problema.
Após o engano embaraçoso decidi que não tinha assim tanta sede e saí da loja rapidamente.
Não só tinha perdido a sede como tinha perdido também a preguiça e caminhava a passos largos na direcção da estação de comboios mais próxima.

Durante a caminhada cada vez mais confuso, não sabia bem o que pensar.
Seria a Vanessa real? Ou fruto da minha imaginação? Ou será que a senhora do comboio e o Senhor Joaquim é que eram imaginação minha? E que raio teria acontecido para justamente no dia que eu decido viajar, haver uma série de ameaças de bomba que me obrigam a voltar num autocarro que avaria no meio de lado nenhum? O que poderia mais acontecer?

sábado, 20 de outubro de 2007

Capitulo 2 - Desconfianças - Parte 3

Desisti de esperar, levantei-me e fui-me embora.
Voltei para casa um pouco aborrecido e mais confuso ainda!

Chegando a casa o cenário tinha mudado. As luzes estavam todas apagadas e a tia já não estava sentada a dormir no sofá.
Vida do campo, dormir ás 22h! – Pensei eu caminhando para o quarto onde ia dormir. No caminho ainda tropecei numa alcatifa e por pouco não caí.
Entrei no quarto, fechei a porta, e deitei-me assim que acabei de me despir.
Adormeci em menos de um piscar de olhos.

Abri os olhos e durante 30 segundos não me mexi. O primeiro momento do dia com os olhos abertos era sempre aquele momento de reflexão onde eu fazia um enorme esforço para me lembrar de quem era, de onde estava e do que iria fazer a seguir!

11h34m – “Bolas!!! Tenho de me despachar!” – Pensei eu, apercebendo-me que tinha acordado no lado oposto da cama onde me tinha deitado. A almofada estava por baixo dos meus pés. Coisas estranhas acontecem enquanto durmo!

Arrumei as coisas à pressa na mochila, passei a cara por água, vesti-me e fui até à cozinha para comer qualquer coisa. Quando lá cheguei a tia já estava a fazer o almoço.
“Bom dia, então tudo bem?” – Perguntei-lhe com esperança que ela não tivesse reparado nas horas.
“Bom dia não, boa tarde! Dormes até esta hora todos os dias? Esta juventude de hoje em dia é mesmo preguiçosa!” – Disse a tia.
Ela ainda tentou refilar comigo porque tinha ficado até tarde na rua e porque não podia ir-me embora sem comer o almoço delicioso que ela estava a fazer mas eu sinceramente queria ir-me embora. Tinha muitas dúvidas na minha cabeça e questionava-me bastante acerca da Vanessa e de todo o aparato dos comboios.
Saí para acabar de tirar as fotos que me faltavam depois de me despedir da tia que me obrigou a levar comigo 2 sandes e 3 maçãs para o caminho.

Despachei as fotografias bastante rápido e dirigi-me para a estação de comboios para voltar para minha casa.
Cheguei à estação de comboios e eis o meu espanto quando estava fechada com um folheto informativo a dizer que devido aos últimos acontecimentos, de 2 em 2 horas haveriam autocarros que transportariam as pessoas para as respectivas estações de comboio de outras cidades.
Olhei para o relógio e eram 13h43m. O próximo autocarro partiria dali a 12 minutos.

De autocarro nunca mais lá chego! Pensei tentando não desesperar, mas a verdade é que não tinha grandes esperanças de chegar a casa antes da meia-noite, estava a ver que a viagem ia ser mais um filme daqueles como tinha sido o do dia anterior. Eu era uma pessoa cheia de azar, tudo me acontecia!
Passados os 12 minutos, o autocarro cheio de gente lá arrancou, 59 lugares sentados por mais incrível que possa parecer.

Ali começou mais uma aventura tal como era fácil de prever, depois do que tinha acontecido no dia anterior.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Capitulo 2 - Desconfianças - Parte 2

“’Tô?!” – Atendi o telefone com aquela minha meia-palavra que eu tanto usava.
“Seth!!! É a Vanessa!” – respondeu uma voz do outro lado.
“Então? O que aconteceu desta vez para voltares a desaparecer?” – Perguntei muito curioso.
“Desculpa ter saído sem dizer nada, depois explico-te, agora não posso. Se puderes aparece logo à noite à porta da estação de comboios por volta das 9h e falamos melhor. Adeus beijinhos.” – Disse ela desligando a chamada sem me deixar fazer mais perguntas.

Após a breve pausa para comer qualquer coisa onde tive mais uma pista sobre a outra, segui o meu caminho. Ainda tinha algumas fotos para tirar com a luz do dia.
O resto da tarde foi calma e muito produtiva. Tinha conseguido tirar a maioria das fotos que precisava e na manhã seguinte tiraria o que faltasse. Estava cansado.

Quando cheguei a casa era noite.
Encontrei a minha tia sentada a ver a novela, ou melhor, a dormir. O gato sim, a ver a novela. Esse, olhava para a televisão como se estivesse a seguir o episódio atentamente. Achei bizarra tal situação.
Sorte! A tia tinha deixado um resto de sopa na panela e um prato com batatas e peixe para o meu jantar. Para ser sincero, não era o meu “menu” preferido mas dava-me por contente de não ter de cozinhar após um dia daqueles.

A casa era bastante humilde e rústica. As mobílias eram quase todas mais velhas que eu e a pintura já pedia um reforço. A tia tinha muitas pratas e copos na cristaleira, fotos de família a preto e branco, e também alguns livros muito antigos a ganhar pó na estante da sala. Ela morava ali sozinha já há alguns anos.
Desde que o tio tinha morrido, num acidente de barco, que ela insistia em manter os livros todos intactos, tal e qual como antes do tio morrer. Alguns deles suspeito que já deviam ter as folhas coladas e a tinta sumida e muito provavelmente nunca mais na vida seriam abertos. Tinham uma função meramente decorativa.

Olhei para o relógio da cozinha.
20h20m.
Mais um pouco e tinha de ir até à estação.
Comi num instante e saí, ainda a tia estava sentada no sofá a dormir sem dar por nada.
O caminho de noite parecia mais curto ou então era eu que com a curiosidade estava a andar mais rapidamente.
O céu estava limpo, e a lua, cheia.



21h01m.
Ao chegar à estação, não vi a Vanessa. Como ainda passava pouco das 9 horas, decidi esperar um pouco antes de lhe ligar.
Atravessei a rua e entrei num pequeno café com ar muito conservador.

“Boa noite, queria um café, por favor!” – Pedi ao senhor que se encontrava atrás do balcão.
“Com certeza.” – Respondeu ele de imediato.
Mantive-me de pé, de maneira que conseguisse ver a entrada da estação de comboios através da porta do café.
Numa das pontas do balcão encontrava-se uma pequena televisão que estava a dar as noticias. Achei estranho pois já passava da hora habitual e decidi questionar o senhor do café.
“Desculpe, aconteceu alguma coisa de extraordinário para ainda estar a dar as noticias?” – Perguntei eu curioso.
“O menino não sabe o que aconteceu?” – Respondeu o senhor com o que foi para mim uma resposta/pergunta estúpida, visto que na minha opinião ninguém pergunta uma coisa que já sabe.
Pelo menos não em uma situação daquelas.
“Pois, não sei. O que foi?” – Insisti falando de uma maneira simples para ver se ele percebia que eu não sabia mesmo.
“Então, parece que houve ameaças de bomba em 18 estações de comboios em todo o país durante o dia de hoje. Têm estado a fazer as reportagens em todas as estações onde aconteceram as ameaças.” – Comentou o senhor.
“Ah, ok! Obrigado.” – Respondi pegando em 2 pacotes de açúcar que ele tinha acabado de me pôr à frente e despejando para dentro da chávena de café.
O meu telemóvel começou a tocar. Tirei-o do bolso e li “Jorge” no visor.
“Tô primo, então tudo bem?” – Atendi.
“Tudo pá. Então onde andas?” – Perguntou-me ele provavelmente à espera que eu dissesse que estava enfiado em casa a trabalhar, como de costume a um sábado à noite.
“Estou um pouco longe de casa, vim tirar fotos aqui a uma zona menos civilizada.” – Respondi eu tentando não falar muito alto não fosse alguém ali da zona ficar ofendido. Entretanto desviei o meu olhar da televisão e espreitei para a porta da estação. Não estava lá ninguém.
“Ai é? Então vá, quando voltares liga-me, a ver se vamos beber um café!” – Disse ele já a despachar-me.
“Ok, eu amanhã ligo-te, abraço.” – Disse-lhe eu não o empatando mais.
“Então ‘tá, até amanhã.” – Acabou ele a conversa.
O meu primo Jorge normalmente ligava-me quando precisava de algum favor ou quando queria conhecer alguma modelo que eu fotografasse. Já a irmã dele, a Bia, era muito apegada a mim e eu já estava a estranhar ela não me ter ligado nos últimos 2 dias.

Já que estava com o telemóvel na mão decidi ligar à Vanessa. Não me valeu de nada ter tentado, ela tinha o telemóvel desligado.
Paguei o café e fui até à porta da estação novamente.
Sentei-me num degrau à espera. A noite estava fria.

Passados 35 minutos e nada, ela não tinha aparecido. Tentei ligar-lhe várias vezes mas o telemóvel dela continuava desligado.
Desisti de esperar, levantei-me e fui-me embora.
Voltei para casa um pouco aborrecido e mais confuso ainda!

sábado, 29 de setembro de 2007

Capitulo 2 - Desconfianças - Parte 1

Chegando a casa da minha tia, decidi comer uma sopa que ela tinha feito para o almoço e voltei a sair, para atingir o meu objectivo, a razão pela qual tinha vindo até ao sul, fotografar.

A rua onde a minha tia morava, não era no topo de uma colina mas quase. Dali conseguia-se ver uma grande área à volta e até mesmo a estação de comboios ao fundo. Era uma rua sem passeios para peões e sem alcatrão também, a estrada era composta por pedras. As casas eram simples e embora algumas tivessem 2 andares, a maioria tinha só um piso térreo. Casa antigas, sem luxo nenhum.
Havia um ou dois cafés a pouco mais de 3 minutos a pé e veículos motorizados era raro serem vistos por ali.



Curiosamente o sol já aparecia por trás de algumas nuvens e não estava frio.
Eu estava relativamente satisfeito pois as fotos ficariam muito melhor com sol do que com a pouca luminosidade de um dia chuvoso e até a má disposição já me tinha passado.

Fiz o caminho de volta até à estação e depois continuei a andar na direcção oposta à da casa da minha tia para ir ao centro da cidade.

O telemóvel tocou e rapidamente me lembrei que podia ser a Vanessa! Apressei-me a atender mas de imediato percebi que se tratava de alguém que se tinha enganado no numero, pois acabara de me chamar Joana e alguns segundos depois percebeu que tinha ligado para a pessoa errada pois a voz da tal Joana devia ser bem menos grossa que a minha.
Voltei a prender o meu pensamento em toda a cena que tinha acontecido de manhã e especificamente na parte do comboio, lembrava-me bem que quando tinha entrado na carruagem com a Vanessa tinha visto 4 outras pessoas já lá dentro e após acordar, aquela senhora dizer-me que não tinha estado mais ninguém sem ser eu e ela, estava a fazer-me muita confusão.
Como seria possível? Qual o interesse da mulher em mentir? Por divertimento? Bem, nesse caso não era muito normal para uma pessoa da idade dela mentir assim mas podia ter sido o caso, sei lá. Eu mesmo já tinha indicado o caminho errado a alguns turistas, só pelo prazer de dar uma gargalhada sempre que me lembro da situação.
Mas e porque é que a Vanessa se foi embora sem dizer nada, se ela ia para o mesmo destino que eu? Podia ter telefonado ou até enviado uma mensagem escrita para o meu telemóvel! Se calhar não tinha saldo.

Já a meio da tarde, com algumas fotos tiradas, parei num café pequeno onde me sentei a comer um bolo delicioso, parecido com um pastel de nata mas maior e mais doce.

O telemóvel voltou a tocar! Desta vez já não me apressei a atender, estava mesmo a ver que me iam chamar Joana ou Alexandra ou até Margarida!
“’Tô?!” – Atendi o telefone com aquela minha meia-palavra que eu tanto usava.
“Seth!!! É a Vanessa!” – respondeu uma voz do outro lado.
“Então? O que aconteceu desta vez para voltares a desaparecer?” – Perguntei muito curioso.
“Desculpa ter saído sem dizer nada, depois explico-te, agora não posso. Se puderes aparece logo à noite à porta da estação de comboios por volta das 9h e falamos melhor. Adeus beijinhos.” – Disse ela desligando a chamada sem me deixar fazer mais perguntas.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Capitulo 1 - A viagem - Parte 5

De repente, ainda um pouco com sono e um pouco a pensar no que a outra senhora tinha dito, lembrei-me que a Vanessa me tinha ligado de manhã e decidi ver o número dela nos registos do telemóvel. Liguei-lhe para saber onde ela estava mas não adiantou. Do outro lado da linha uma voz feminina dizia que o número para o qual eu estava a ligar, não estava disponível.

Respirei fundo sem saber o que fazer, com sono e ainda um pouco mal disposto. Não estava a ser fácil o meu dia.
Sentei-me e acabei por adormecer novamente.

“Menino… Acorde menino, o comboio já não anda mais hoje!” – Ouvi muito ao longe.
Abri os olhos, era a senhora da limpeza que estava parada a olhar para mim.
“O menino está para aí a dormir mas olhe que é melhor ir andando se não ainda o deixam aqui fechado a dormir e depois fica aqui preso o dia todo!” – Continuou a senhora da limpeza.
“Olá, boa tarde. Vou-me já embora, desculpe lá estar a atrapalhar o seu trabalho!” – Disse eu levantando-me, pegando na minha mochila e saindo do comboio apressadamente.

Era suposto uma tia minha estar à minha espera na estação.
Conhecia pouco essa minha tia, na verdade acho que tinha estado com ela 2 vezes em toda a minha vida e uma dessas vezes ainda quando eu estava na barriga da minha mãe, pelo menos era a historia que ela sempre me contava. Que tinha saído de casa quando engravidou e essa tinha sido também a ultima vez que ambas se viram.
Eu continuava a acreditar que não nasci no planeta terra. Por vezes as acções do ser humano levavam-me a crer que eu não era de cá e era também uma desculpa para não me deixar levar pelo pensamento “errar é humano” e “se os outros fazem, eu também posso”.

Lá estava ela, ao fundo da plataforma, não que eu a tivesse reconhecido mas era a única pessoa na plataforma com um ar de campónia.
A minha mãe falava muito dela e do feitio dela, costumavam comunicar por carta.

“Olá tia! Como está?” – Perguntei, dando dois beijinhos e sentindo aquela verruga que ela tinha um pouco a noroeste do lábio superior.
Eu tratava toda a gente mais velha por Você, uma questão de respeito. A menos que a pessoa insistisse para trata-la por Tu, o que não era o caso.
“Olá filho! cá vamos como o senhor quer. Como foi a tua viagem?” – Respondera ela com uma pergunta que me deixava muito baralhado e me fazia recordar toda a aventura que tinha passado: o aparato na estação; a misteriosa miúda que aparecia e desaparecia sem deixar rasto; a senhora de metro e meio com a mala grande que disse que me não tinha visto a Vanessa; e até me lembrei da má disposição que tive por causa da sandes que tinha comido de manhã.

13h02m
O caminho até casa da minha tia foi feito a pé, cerca de 15 minutos a andar, por estradas de terra, sem qualquer tipo de pedras ou alcatrão.
A pequena vila onde a minha tia morava chamava-se “Loja Nova” e pertencia ao concelho de Faroiardenz, distrito da Mourrunhenha. Uma vila com poucos acessos, pouca tecnologia/recursos e com população algo envelhecida onde já não nascia uma criança há mais de 30 anos. Completamente em vias de extinção.



Breve descrição da minha tia que caracterizava bem uma pessoa nascida e criada naquela vila:

Nome: Maria Gervásia
Idade: 48
Aspecto: Não muito agradável. Destacar o bigode e a verruga típica de uma mulher local e as mamas até ao umbigo
Estilo de musica preferido: Popular
Cidade natal: Faroiardenz, distrito da Mourrunhenha
Coisa que não suporta: Que a incomodem quando está a trabalhar
Profissão: Professora de matemática
Pior defeito: Perfeccionista
Maior vicio: Fumar
Passatempo preferido: Sopa de letras e palavras cruzadas.
Melhor virtude: Extremamente paciente
Coisa mais louca que fez ate hoje: Fugiu casa quando tinha 15anos mas voltou 2 horas depois com saudades
Outra info útil: Nunca viveu numa cidade grande; Isola-se da Tecnologia - "essas Modernices" - e da Evolução

Chegando a casa da minha tia, decidi comer uma sopa que ela tinha feito para o almoço e voltei a sair, para atingir o meu objectivo, a razão pela qual tinha vindo até ao sul, fotografar.

domingo, 16 de setembro de 2007

Capitulo 1 - A viagem - Parte 4

O meu telemóvel tocou. Chamada de um número que eu não conhecia.
“’Tô, quem fala?” – Confesso que não sou muito simpático a atender telefonemas. – “ Vanessa? Como arranjaste o meu número?”

Ela disse-me que tinha encontrado o meu número de telemóvel num cartão pessoal, dentro da minha carteira que caiu quando tirei a máquina fotográfica de dentro da mochila e com a ânsia de tirar as fotos, nem reparei. Quando cheguei à estação, tinha perguntado no balcão das informações se o bilhete de comboio que comprei na outra estação ainda era válido e disseram-me que sim, por isso não tive de procurar pela carteira na mochila para comprar um bilhete novo e foi essa a razão pela qual não tinha dado pela falta dela ate ao momento.

Tinha então que esperar pela Vanessa para me devolver a carteira. Ela disse que já se encontrava a caminho da estação pois também ia para a mesma cidade que eu: Faroiardenz, disse-me ela ao telefone.
Entretanto mudei de ideias e decidi que não lhe iria dizer nada acerca do sonho que tive onde ela apareceu, nem sequer me lembrava do que ela me tinha dito no sonho, era melhor estar quieto e não fazer figura de urso.
11h03m quando ela entrou na estação, faltavam 7min para o comboio chegar.
Fiquei aliviado por reaver a carteira e sem pensar duas vezes averiguei se estava tudo lá dentro.
Estava tudo lá.

Entrámos no comboio à hora prevista e qual o meu espanto quando vi que o comboio era bastante recente, limpinho e com ar condicionado, óptimo para eu dormir uma sesta! Ao entrar na carruagem reparei que já se encontravam lá dentro 4 pessoas. Sinceramente não prestei muita atenção.



Falámos durante um bocado mas eu para além de estar mal disposto (provavelmente por causa daquele queijo com sabor esquisito que tinha comido na outra estação), estava a ficar cheio de sono. Não que ela fosse chata, pelo contrario, eu é que tinha andado a trabalhar ate tarde no dia anterior e estava cansado. Ainda consegui juntar alguma informação sobre ela:

Nome: Vanessa
Idade: 25
Aspecto: Estatura media, olhos verdes, cabelo negro e liso pelo meio das costas
Estilo de musica preferido: Um pouco de tudo, dependendo da ocasião/estado de espírito
Cidade natal: Porto
Coisa que não suporta: Todo o tipo de machismo e preconceito
Profissão: Enquanto termina o curso trabalha em part-time como taxista
Pior defeito: Teimosia
Maior vício: Roer as unhas e ir ás compras
Passatempo preferido: Jogar volei, fotografar
Melhor virtude: Honestidade, firmeza, determinação, confiança e segura de si mesma
Coisa mais louca que fez ate hoje: Procurou fazer uma revolução a favor dos direitos das mulheres
Outra info útil: Esta no último ano do curso de desporto e um dos maiores sonhos é ser treinadora de volei.

Emprestei-lhe a minha máquina para ela tirar algumas fotos através da janela do comboio, visto que ela gostava de fotografia e já tinha visto que eu tinha uma máquina boa.
Enquanto ela estava entretida a tirar fotos eu adormeci.

Acordei novamente sobressaltado e mais uma vez ela já não estava lá, mas desta vez não me tinha levado a mochila. No banco, ao meu lado, estava a minha mochila com a máquina fotográfica por cima mas no entanto nem uma papel a dizer adeus, nada.
“Que simpática!” – Pensei ironicamente.

12h17m
Olhei pela janela para me tentar localizar mas sinceramente mais valia não ter olhado porque fiquei exactamente na mesma. Tirei da mochila um pequeno mapa que tinha com a rede dos comboios para ver onde devia sair para trocar de comboio.
Foi então que me levantei na esperança de encontrar alguém que me dissesse onde estava. Dois bancos atrás de mim estava uma senhora já com uma idade avançada, e uma mala quase da altura dela, o que não era difícil pois ela não tinha mais de metro e meio. Impressionante: ou ela andava no ginásio, ou a mala vinha vazia porque era simplesmente estranho imaginar uma senhora daquela idade, um pouco corcunda e magra a carregar uma mala daquelas, mesmo a mala tendo duas rodas para ajudar a move-la.
Decidi aproximar-me.
“Boa tarde, desculpe estar a incomodar mas será que me pode indicar se falta muito para a estação onde posso trocar de comboio para a linha do sul? A linha que pára em Faroiardenz!” – Perguntei eu, um pouco na expectativa de ver com quantos dentes ia obter uma resposta.
“Não incomodas nada filho, por acaso ainda não passámos lá porque estivemos quase 30 minutos parados. É já na próxima paragem, mais uns 5 minutos talvez.” – Respondeu a senhora sem os dois dentes frontais superiores.
Agradeci, virei costas e voltei a sentar-me, não fosse ela começar a falar da história da vida dela e eu sinceramente não me apetecia ouvir. A maioria das pessoas de idade que conhecia, mal lhes dava uma oportunidade, começavam a falar e nunca mais se calavam. Apanhava sempre grandes secas.
Subitamente lembrei-me de lhe perguntar se tinha visto a Vanessa ir-se embora.
“Já agora, não viu em que estação saiu a minha amiga que estava aqui sentada à minha frente?” – Perguntei.
“Quem? Não vi aí ninguém contigo. Estou aqui desde o início da viagem e lembro-me de te ver entrar mas tens estado sempre aí a dormir sozinho. Aliás, nesta carruagem só mesmo eu e tu filho, não esteve cá mais ninguém!” – disse ela com um ar muito confiante.
A primeira coisa que me veio à cabeça foi que a senhora devia ter um problema qualquer. Primeiro aquela mala e ela com aquele aspecto e agora dizia que não tinha visto ninguém comigo. A senhora devia de estar bêbeda, só podia. Por momentos cheguei a questionar-me se a Vanessa seria real ou se teria sonhado acordado durante a manhã inteira.
Agradeci novamente e voltei a sentar-me.

Passados alguns minutos o comboio parou na estação. Saí e dirigi-me para outra plataforma onde esperei cerca de 5min. até o outro comboio chegar.
Entrei e desta vez a carruagem estava vazia. O comboio era muito mais antigo e desconfortável.

De repente, ainda um pouco com sono e um pouco a pensar no que a outra senhora tinha dito, lembrei-me que a Vanessa me tinha ligado de manhã e decidi ver o número dela nos registos do telemóvel. Liguei-lhe para saber onde ela estava mas não adiantou. Do outro lado da linha uma voz feminina dizia que o número para o qual eu estava a ligar, não estava disponível.

Respirei fundo sem saber o que fazer, com sono e ainda um pouco mal disposto. Não estava a ser fácil o meu dia.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Capitulo 1 - A viagem - Parte 3

Quando finalmente decidi tentar a minha sorte (pior não podia ficar, pensava eu!), o telemóvel dela tocou! Fui salvo pelo gongo como se costuma dizer.
Achei que a rapariga (digo "rapariga" porque assim pela aparência devia ter a mesma idade que eu) precisava de alguma privacidade para falar ao telemóvel, então tirei uma sandes e um sumo de dentro da mochila, deixei-a em cima do banco e levantei-me. Fui ate perto de um placar que tinha um mapa da rede de comboios a meia dúzia de metros de distância do banco. Enquanto olhava atentamente para o mapa, decidi começar a comer a sandes que tinha comprado quando cheguei à estação. Sandes mista e sumo de maçã para acompanhar. Até não estava má a sandes, embora o queijo tivesse um sabor um nada estranho. Talvez fosse um queijo diferente daqueles que estou habituado a comer, ignorei o sabor e comi.

Observei as redondezas do sítio onde me encontrava enquanto fingia estar a observar o mapa. A estação era bastante iluminada, não tinha tecto, só uns toldos para abrigar as pessoas nas 3 plataformas existentes. Cada plataforma servia 2 linhas, por isso, 6 comboios poderiam partir da estação em simultâneo. Apesar do céu estar ainda um pouco nublado, a iluminação artificial era muito boa. As paredes da estação eram todas em tijolo laranja-vermelho, mas aquele tijolo pequeno. Fez-me lembrar o estilo inglês por momentos.
Havia meia dúzia de lojas: Duas lojas de conveniência, 2 restaurantes, uma papelaria e uma florista, casas de banho, cabines telefónicas onde estavam 2 indivíduos com mau aspecto a falar ao telefone, uma maquina Multibanco onde se podia ver uma senhora com uma certa idade a reclamar com a máquina, bilheteiras sem ninguém na fila e uns quantos bancos e caixotes do lixo ao longo das plataformas. Achei piada à florista, estava muito fora do contexto. A própria decoração exterior da loja não tinha muito a ver com o estilo do resto da estação de comboios. A própria florista (pessoa que lá trabalhava) encontrava-se naquele momento à porta da loja a falar ao telemóvel com a maior das calmas olhando para os tipos da cabine e parecia que a conversa estava a correr bem pois ela ia sorrindo, não devia ter muito para fazer. Era uma rapariga nova mas com ar de quem passava uma certa fome.

Subitamente aconteceu uma daquelas coisas que realmente me fez acreditar na ideia que tive de manha quando me deparei com a chuva. Que esta viagem ia ser algo complicada.
Conforme me virei de costas para o placar, dando uma volta de 180º, vejo uns quantos polícias com cães a entrar por uma das 4 portas da estação, correndo em direcção ás bilheteiras.
Fiquei apreensivo e surpreendido tal como a maior parte das pessoas na estação. Conseguia-se deduzir isso pelas expressões na cara daqueles que se aperceberam do aparato.
O Relógio XL em pedra que estava pendurado na estação marcava 10h07m.
"Senhores e Senhoras, todos os comboios foram cancelados até novas instruções. Queiram abandonar as instalações, com calma e ordenadamente. Obrigado" – Ouviu-se alguns segundos depois por toda a estação através dos altifalantes.
"Ora bolas, lá se vai o meu comboio!” – Pensei.

Entretanto houve uma invasão de polícias e seguranças pela estação a dentro, tudo muito rápido, para tentar tirar o povo de dentro da estação.
Quando olhei novamente para o banco, nem miuda, nem a minha mochila!
De repente senti uma mão nas minhas costas, quando me virei era um funcionário da estação.
"Peço desculpa mas temos de abandonar o recinto, o mais breve possível." - Disse ele calmamente.
"Mas o que é que se passa?" – Perguntei curioso.
"Não posso divulgar, acompanhe-me até à porta por favor!" – Respondeu ele sem expressão.
Mandei a garrafa de sumo para o lixo que estava mesmo ao lado e fui então acompanhado pelo senhor funcionário até uma das portas. Estava um caos do lado de fora da estação. Dezenas, senão um pouco mais, de pessoas com malas, aos gritos a reclamar, outros a tentar perceber o que se passava espreitando para dentro da estação e outros simplesmente a tentarem afastar-se do meio da confusão indo em direcção à paragem de autocarro mais próxima. A polícia com grande dificuldade tentava acalmar os ânimos e mandar as pessoas para fora dali.

Quando cheguei cá fora tive um breve momento para pensar e apercebi-me da gravidade da situação. "Estou aqui com o telemóvel num bolso e bilhete de comboio no outro!" – Pensei tentando respirar ao mesmo tempo para não entrar em pânico. Era constantemente empurrado, era quase pior que ir a um concerto de rock!
Num acto lúcido, decidi furar a multidão no sentido oposto à da estação, atravessar a estrada e do outro lado então, olhar para o povo que ali estava para tentar ver se encontrava a minha ladra preferida de olhos verdes. Não era tarefa fácil.

"Olha, esta mochila não é tua?" – disse uma voz que me lembrava de ter ouvido não há muito tempo. Quando olhei, era ela!
"Sim, e porque é que não deixaste a mala no banco onde ela estava? ou por outra, se a roubaste, por que é que me a estás a devolver?" – Estava confuso e sem saber o que pensar.
"Calma, eu não roubei. Um polícia perguntou se era minha, e provavelmente se não dissesse que sim, ia ser mais difícil para ti de reavê-la pois eles olharam para a mochila com um ar suspeito." - Nem ela tinha acabado de falar a palavra "suspeito" e tudo fez sentido.
Ameaça de bomba!
Apressei-me a tirar a máquina fotográfica de dentro da mochila, ignorando completamente que ela continuava ali.
"Que horas eram quando recebeste a chamada?" – Perguntei-lhe enquanto tirava as primeiras fotos à estação e à multidão que ali estava.
"Qual chamada?"
"A que recebeste quando te sentaste no banco ao meu lado!" – Perguntava eu rapidamente tentando tirar fotos e não me esquecer do meu raciocínio que estava a ter ao mesmo tempo que respondia à pergunta dela.
"Não sei, porque?"
"Vê nos registos do telemóvel, rápido!"
"Mas porque?" – Perguntou ela enquanto começava a tirar o telemóvel de dentro do saco desportivo.
"Mostra-me sff! Segura-me na máquina." - Quase lhe tirei o telemóvel de uma mão enquanto lhe passei a máquina fotográfica para a outra e rapidamente meti a minha mão ao bolso para tirar o meu telemóvel.
"Lista telefónica... R, R, R, Redacção! Chamar!" – Estava ansioso, tinha as primeiras fotos do acontecimento, pensei. Queria ver quanto me daria um jornal local, para o qual eu trabalhava como freelancer, pelas fotos.
"’Tô, colega, pode me passar ao Eduardo Esteves, por favor?" – O Eduardo era o cromo que me fazia as propostas miseráveis pelas fotos e que cedia sempre acabando por subir um pouco o preço das fotos após algumas negociações. - "Sim Eduardo, bom dia, daqui fala o Seth! Tou na estação de comboios e houve uma ameaça de bomba, tenho as primeiras fotos acabadas de tirar. Não queres mandar cá ninguém para recolher mais informações e talvez entrevistar as autoridades?" – Apesar de não ser nada demais, eu esforçava-me ao máximo para conseguir uma oportunidade para fazer parte da equipa do jornal. Não gostei muito da resposta do Eduardo, disse que ia enviar a jornalista e o fotógrafo assim que possível visto ser fim-de-semana eles estavam de folga. Só não percebi porque é que ele tinha que mandar o fotógrafo. Não estava lá eu?
Entretanto vi que a chamada recebida no telemóvel da outra tinha sido ás 9h58m. Devolvi o telemóvel e agradeci.
"Tens aqui uma máquina muito interessante. És fotografo?" – Perguntou-me ela.
"Sim, E já agora o teu nome é?"
"Vanessa! Tu és o Seth, já percebi."
"Pois. Obrigado por me teres salvo a mala, foi muito inteligente e simpático da tua parte fazeres isso por alguém que não conheces." - Disse eu tentando ser simpático visto ela ter me poupado algum trabalho com a policia.
"Não foi nada demais, reparei que a mochila era tua e aconteceu tudo tão rápido que percebi que nem te apercebeste que a polícia ficou intrigada com a tua mochila ali sozinha na outra ponta do banco."
"Ok. Obrigado de qualquer maneira."
"De nada. Já agora, para que é que querias saber a que horas eu recebi a chamada?"
"Nada de mais, tenho uma pista em mente caso se confirme que foi ameaça de bomba."
"Então, conta-me!"
"Não é nada, devem ser devaneios meus. Tenho de me ir embora." - Eu não queria dizer o que pensava, não fosse ela rir, ou então não fosse ela contar algo á polícia e ficar com a fama para ela.
"E os teus colegas do jornal? não vais esperar por eles?"
"Não. 1º Eles não são meus colegas e 2º se o outro vai mandar um fotógrafo, eu já não faço aqui nada. Tenho de ir andando. Adeus e obrigado." – Disse-lhe já depois de ter metido a máquina na mochila e a mochila ás costas. Concentrando-me novamente na minha viagem, tinha de ir à estação de comboios mais próxima e esperar que houvesse maneira de seguir a minha viagem sem muitos mais atrasos.
"Ta, xau." - Respondeu ela já enquanto eu me afastava.

10h52m e eu já estava em outra estação à espera. Ainda tinha que trocar novamente de comboio pois como a linha era outra, este comboio não ia para a cidade que eu queria.
Com a situação toda que se passou até me tinha esquecido que tinha sonhado com a outra rapariga e nem lhe cheguei a falar nisso. Agora era tarde de mais, ela tinha ficado para trás.
O meu telemóvel tocou. Chamada de um número que eu não conhecia.
“’Tô, quem fala?” – Confesso que não sou muito simpático a atender telefonemas. – “ Vanessa? Como arranjaste o meu número?”

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Capitulo 1 - A viagem - Parte 2

Entretanto tinha parado de chover, mas nem por isso parou de estar frio e eu ali armado em herói de manga curta. "É psicológico, o frio é psicológico!" – pensava eu enquanto folheava as primeiras páginas do livro que comprara. Reparei que o livro tinha 222 Páginas (Bolas, grande paranóia! 2 2 2 2 2 2 2...). 9h e o amigo sol nada, não tinha aparecido ainda.

Meia hora à espera e o livro não me estava a ajudar a passar o tempo, pois ainda tinha sono e volta não volta fechava o olho, esquecendo-me do parágrafo anterior que tinha lido há 1 minuto atrás. Acho que uma das vezes quase cheguei a adormecer!
Foi então que me lembrei de andar um pouco para ver se acordava. Já com as calças quase nada molhadas da chuva e do chocolate quente, decidi ir á casa de banho e aproveitava, não fosse dar vontade no comboio!



Quando voltei, vi alguém sentado no banco onde eu já tinha estado.
"hum... deve haver espaço para os 2, apesar da minha mochila!" - pensei eu enquanto me aproximava e começava realmente a ver quem estava ali sentado.
"NAO ACREDITO!!!" - Conforme me fui aproximando e a silhueta da pessoa foi tomando forma e cor, apercebi-me que conhecia a pessoa de algum lado. Olhos verdes, cabelo negro e liso... - "É ELA, A RAPARIGA DO SONHO!" - lembrei-me. (Para quem não se lembra, ler o primeiro parágrafo da historia). - "E agora o que faço? ela não me conhece! mas eu conheço-a do sonho!...como é possível?" - a minha mente latejava mil perguntas por segundo, o coração também tinha disparado. Estava nervoso. - "Será que devo meter conversa? Se lhe digo que sonhei com ela, vai pensar que é frase de engate!" - Encontrava-me numa situação complicada. Por um lado queria contar-lhe que tinha sonhado com ela e perceber se poderia ter algo para me dizer mas por outro lado não me lembrava o que ela me tinha dito no sonho, aliás, penso que acordei mesmo na altura em que ela ia começar a falar! Que cena mais incómoda.

O tempo passava, sentia os segundos a avançarem e eu ali sem quebrar o gelo. Ela com uns fones nos ouvidos também não tornava a minha vida fácil para meter conversa. Devia ser atleta, trazia um saco desportivo. Estava a roer as unhas, o que eu não achei muito bom, mas fazer o quê?! Eu próprio também sofria do mesmo vício.

Quando finalmente decidi tentar a minha sorte (pior não podia ficar, pensava eu!), o telemóvel dela tocou! Fui salvo pelo gongo como se costuma dizer...

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Capitulo 1 - A viagem - Parte 1

Acordei sobressaltado, estava a ter um daqueles sonhos com alguém que nunca vi (e talvez nunca venha a ver), o episodio típico em que uma pessoa surge sabe-se lá de onde e te sussurra uma previsão de algo que ela sabe e tu ainda não.
7h41m.
Bela hora para acordar mas pelos vistos fui o único porque sol, nem vê-lo.

Sentei-me na cama a pensar que tinha realmente de abrir os olhos e tentar encontrar o caminho para a casa de banho. Ainda tinha uma longa caminhada, talvez uns 3metros, até chegar lá. Uma vez de pé e após todo aquele percurso extremamente longo e perigoso até ao lavatório, observava com um olho meio aberto e o outro mais ou menos fechado, o meu reflexo no espelho. O pensamento era sempre o mesmo todos os dias... "tenho tanto sono, é hoje que me deito mais cedo! e que tal se fosse já?". Decidi despachar-me.

Breve apresentação da minha pessoa:

Nome: Seth Meh Phri
Idade: 25
Aspecto: cabelo mais ou menos curto, loiro, alto, massa corporal de acordo com a altura. Uso Óculos.
Estilo de musica preferido: hOuse
Cidade natal: LisbOnyardz
Coisa que não suporta: pessoas que opinam sem perceber do assunto.
Profissão: fotografo
Pior defeito: egoísta por natureza
Maior vicio: roer as unhas
Passatempo preferido: dormir
Melhor virtude: ...(duvido que tenha!)
Coisa mais louca que fez ate hoje: saltou de um carro em andamento e só partiu um pé!
Outra info útil: talvez sofra de alguma lesão cerebral de nascença. Pensa que é extraterrestre.

Lavado, vestido, e com os pés dentro dos ténis, apareci publicamente de mochila ás costas. Assim que meti o pé na rua e apanhei com a chuva na cabeça senti que se tratava de uma viagem diferente. Tinha vestido umas calças pretas e uma T-shirt vermelha (ficava muito bem mesmo, principalmente á chuva!).

A missão dos próximos 2 dias era ir ate uma pequena cidade a 250km para sul, fotografar alguns locais e alguma flora para um projecto que tinha de apresentar daí a uns dias na universidade.

Após a curta viagem de autocarro, cheguei á estação.
"Ena, tanta gente com tantas malas!...devem ir de viagem.".
Segundo dilema do dia (o primeiro foi acordar, ou ficar a dormir!), que comboio escolher. Havia duas rotas de comboios que passavam pela cidade para onde queria ir. Uma delas era mais cara, mais rápida mas menos frequente, a outra era mais lenta, mais barata, mais frequente e mais susceptível a falhas no serviço pois com frequência os comboios atrasavam ou eram retidos em determinadas estações por "falhas técnicas".
Optei pela mais cara. 2horas de espera até à partida. Mas a hora de chegada era a mesma do comboio que acabara de perder.



Decidi dar uma volta pelas lojas da estação para comprar algo para comer, tinha-me esquecido de comer em casa, com a ânsia de partir para sul.

Acabei por comprar um livro chamado "nem imaginas onde te foste meter!" por gostar do título. Contava a história de 2 jovens de 22anos que fizeram um inter-rail de 2 meses pela Europa em 2002 partindo de Áustria a 2 de Fevereiro (2jovens,22anos,2meses,2002,2Fev...não são "2" a mais?). Comprei também um chocolate quente com extra-açucar que acabei por entornar um pouco nas calças e outro pouco no banco quando me sentei à espera do comboio.

Entretanto tinha parado de chover...